ignorância, uma estrutura presente em trilha sonora

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(detalhe do material gráfico)

cá estou sentado olhando a tela do computador e uma escola em obras, ouvindo Moonlight Serenade do Mancini, recolhendo meus escritos para organizar aqui e percebo que: de todas as atividades que a música me permite realizar, a trilha sonora é a que mais me aproxima da literatura. temas, timbres e direcionamentos estéticos dando função sonora para cenas. Ignorância, a mais recente produção do grupo quatroloscinco endereça ocorrências entrelaçadas. ‘os atores tecem cinco breves situações conectadas por um jogo com trinta cadeiras espalhadas pelo palco’, o que estabelece uma dinâmica que nunca manipulei antes.

minha forma de construir trilha é pouco usual, meu primeiro ato é criar uma música partindo do texto. um tema-guia para caminhar durante os ensaios, assisto o máximo que posso. daí surgem os encontros com a equipe para direcionar o melhor trajeto sonoro de cada cena, ouço atentamente para que durante a criação todas as ideias se façam contempladas.

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(gravação de uma das trilhas na Maloka Produtora . BH/MG)

em Ignorância estabeleci uma cartela de timbres possíveis desde a primeira leitura do texto, claro que ela se transformou muito até aqui mas ainda está dentro do conceito original: um conjunto dos timbres mais presentes nas minhas criações; rhodes, metalofones, estalos de folhas secas, ambiências sintéticas (que servem para cobrir as melodias); e os menos presentes; oboé, cello, guitarra, violão, voz.  a maior dificuldade era manter um discurso de sons que permitissem que uma mesma trilha pudesse finalizar uma cena e iniciar outra, e que ao mesmo tempo não determinasse um padrão.

surgiram muitas perguntas durante o processo, sempre inseguro, pois é comum finalizar uma proposta e no ensaio perceber que a cena foi alterada. o que não dispensa a proposta,  é tudo exercício. o que não se aplica num dado momento – esteja certo – irá se aplicar num outro, mesmo que na feitura de outra cena.

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(foto: Felipe Messias)

as indicações feitas pelos atores abriram espaços para movimentos que não haviam passado pela minha cabeça. descobri que depois de algum tempo trabalhando com vários grupos ganhei alguns vícios, ou melhor, gabaritos – que me perseguem no soar das notas. por isso a importância de não rejeitar qualquer conversa com a equipe, principalmente as piadas. (estas são fundamentais)

sobre as técnicas utilizadas mantive o uso de ruídos, leitmotif para personagens-fantasma e num caso específico source music (música que tanto os atores quanto os espectadores ouvem). geralmente evito apenas o uso de colagens, de fato a técnica da colagem em trilha sonora ainda não foi redescoberta. a saída da trilha é estéreo com aplicação acentuada da divisão panorâmica do áudio.

processo

(trava de porta utilizada como objeto sonoro)

por fim, antecipo que a complexidade desta trilha é o mecanismo do espírito ignorante – recupero aqui o que as palavras me trouxeram durante a primeira leitura do texto – a dramaturgia como fonte combinatória de informações sonoras. cada vez que uma nota ou ruído soa, reorganiza e desliza todo o conceito da cena e é assim que deve ser uma trilha sonora, penso. Ignorância responde uma dúvida pessoal: trilha sonora é escrever mais que tocar, ouvir mais que ver, ler mais que falar e pensar mais que a cena.

p.s.: quando cheguei no ensaio e vi as cadeiras sorri e mostrei um adesivo meu para a equipe. eles disseram: foi por isso que nós te chamamos.


Ignorância

21 a 31 de outubro – Funarte . BH

13 a 22 de novembro – Palácio das Artes (teatro João Ceschiatti) . BH

Equipe de Criação:

Texto e Direção: Marcos Coletta e Assis Benevenuto
Atuação: Rejane Faria e Italo Laureano
Orientação Vocal: Ana Hadad
Orientação Corporal: Rosa Antuña
Cenografia: Eduardo Andrade e Cristiano Cezarino
Figurino: Lira Ribas
Iluminação: Rodrigo Marçal
Trilha Sonora Original: Barulhista
Observadores de criação: Eid Ribeiro, Graziella Medrado, Paulo André, Sara Rojo e Vinícius Souza
Projeto Gráfico: Filipe Costa e JM Emediato – Lampejo
Fotografia de Divulgação: Felipe Messias
Fotografia de Cena: Guto Muniz – Foco in Cena
Assessoria de Imprensa: Variável 5
Video: Janaína Patrocínio – JPZ Comunicação
Produção: Maria Mourão
Realização: Quatroloscinco – Teatro do Comum


mais informações: quatroloscinco

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4 Comments

  1. Grande e querido Barulhista! Que bela postagem! Sim, fazer música é escrever e escrever é fazer música. Aliás, quase tudo é escrita. E voce faz literatura das boas. Obrigada pelo compartilhamento de saberes e um abraço!

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