Bipe

Ela não pensou duas vezes, a família e alguns amigos avisaram – não precisa! – mas ela insistiu. Acordou cedo, pegou a bicicleta e foi cortar o cabelo. Voltou já no meio do almoço, pensava no concerto e no namoro por telégrafo. Não almoçou, pulou na melhor roupa, comeu uma empada de queijo na rua – foi ver a amiga. Conversas sobre o Rio de Janeiro – as duas e os Rios – a visita de negócios estava feita. Hora de andar um pouco e ver o telegrafista.
– Moço, um Ouro Branco por favor. – tempos atrás tinha lido numa revista de dentista que 17 horas é o melhor horário para comer bombom, estava uma hora atrasada – e duas adiantada para o concerto.
– Moço, me dá mais um. – claro, vai que o telegrafista aparece, vai ser ótimo oferecer um bombom.
A cena é longa, uma espera e tanto – uma espera bonita como deve ser. O concerto insistiu em ser lindo, ela agradeceu os aplausos – foram eles que a fizeram pular de volta.
Ela comeu o bombom descendo a avenida, pensando no telegrafista. Pensando na vontade dele, sabe dessas vontades que tendem a parecer falsas, forçadas ou sem fundamento. Como assim, tanto encantamento vindo de um telégrafo? Era tarde, o sono pode ter interferido na mensagem. O primeiro bipe – acho que foi em 2009 – uma lembrança possível. A avenida ia pensando com ela, na ansiedade e a felicidade em observar tanto carinho guardado pra ele.
– E a gente fica sentindo essas coisas na rua. (em voz alta)
Passava das 23 horas quando o telegráfo bipou: Paciência, beijos.

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