Corpo Falante (Lecy Pereira)

Lecy Pereira (performer)

Ao constante Barulhista

Está vendo aquela estrada ali?
Sim.
É por ela que o poeta José Régio nunca vai.
Quem é José Régio?
Um poeta que você não conhece.
Mas aquela estrada parece tão perfeita, cheia de liluzes, como se fora projetada por um engenheiro alemão.
Eu sei que ele não vai e até escreveu isso num poema.
Alguns homens são de palavra, ainda que você os interprete ao pé da letra.
Outros são de sons.
Você ouve vinil ou CD?
Eu ouço barulhos intermitentes.
Deixe-me entender.

Um ventilador de teto com problema, por exemplo, quando ligado ele fica nhem-nhem-nhem-nhem, misture com o som de uma bomba pintando um portão de Metalon, misture com o cantor Genival Lacerda dizendo: Ele tá de olho é na butique dela.

Mas, então, tudo é música?
Depende do ouvido.
(A luz do cabaré já se apagou em mim)
E silenciaram.
E ficaram por longos e diletantes minutos ouvindo o silêncio decretado.
Aquilo era música.
Assim como cada um tem a sua hora de dormir e também de despertar.
(Cantei, Cantei, como é cruel tocar assim)
Aquilo era música plana e plena como cada ser humano é um planeta.
Agora Elis Regina é uma estrela regida por Marte e amada por Vênus.

O silêncio trouxe o gorjeio dos pássaros, algo semelhante a uma manhã de uma estação saltitante.

A realidade é nua-crua.
Paralelamente há sempre alguém mandando você pegar limões e fazer limonada.
Mas e se eu não quiser?
Então os esprema in natura na boca.
Seria música?
Uma sinfonia.

Quem poderia me dizer com precisão matemática quantas estrelas habitam o céu aberto?

Isso mudaria você? Colocaria ordem no seu caos?
Eu queria fazer um concerto estelar.

(O mundo está mudando, lá,lá,lá, sem querer se perdendo, lá,lá,lá e a chuva cairá-á-á nesse mundo pequeno)

Em nenhum momento você pensou no lodo.
Só os poetas dispõem de tempo para pensarem em lodo.
Deve ser por esse motivo que há três oceanos no planeta e eles nunca param de fazer barulho.
E o silêncio se fez. Nenhum pássaro. Nenhum trânsito de automotores miseravelmente caóticos.
(Aonde a vaca vai, o boi vai atrás)

Nenhuma vovó cantando um sucesso de sessenta anos antes. Nenhum britador surtando.

Déjà vu em estado bruto. Foram-se as baterias eletrônicas. Não mais o som tosco no último volume em carros de jovens emergentes do nada.

Nisso, um deles pensou que todas as palavras justapostas acabam revelando um oráculo perfeito. Todas as palavras tecendo um balaio produzem profecias ricas em detalhes e de uma precisão dialética.

Era como se o silêncio falasse altíssimo.

Enquanto isso, dois corações batem no ritmo da sobrevivência tendo seus destinos traçados para além das estradas.

Eu estou querendo dizer uma coisa, mas temo que seja uma bobagem tremenda – um deles quebrou o silêncio.

Agora que começou complete a bobagem.
Eu desconfio que o coração seja uma espécie de caixa de som musculosa e com tweeter.
Reza a lenda que três pessoas moram dentro de cada coração.
Então, está explicada a festa dentro de nós.
E calaram-se outra vez.
(Comecei a ser)

Referências intro: Evaldo Gouveia e Jair Amorim, Caubi Peixoto, Os Caçulas, João da Praia e Barulhista.

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